segunda-feira, 23 de outubro de 2017
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Pavulagem celebra São João com as cores e os sons da nossa terra

Arrastão do Pavulagem 2017. Foto: Dah Passos

Há 30 anos um sonho brilhou como uma estrela nas manhãs do mês de junho: dançar quadrilha e cantar para São João com as cores e os sons da nossa terra. O sonho continua vivo, resistindo e se reinventando nas ruas e no coração de quem aprendeu a ter orgulho de ser de Belém e de ser do Pará. Uma conquista do Arraial do Pavulagem ao construir uma quadra junina em que povo paraense se reconhece durante os tradicionais Arrastões do Pavulagem. Neste domingo (25), a cidade se reencontra mais uma vez com a cultura e com arte no 3º Arrastão do Pavulagem 2017. A concentração começa às 9h, na escadinha da Estação das Docas com show da Roda Cantada do Arraial.

Estandarte de São João, bênção divina no mês de junho. Foto: Dah Passos

Ao incorporar elementos de diversas linguagens, o Pavulagem construiu uma manifestação repleta de simbolismo. O chapéu de fitas coloridas, os estandartes de santos, os mastros de São João, os bonecos cabeçudos, os ritmos, os bailados, a estrela azulada encantando toda a gente. Referências e inspirações de Belém, de Bragança, de Cachoeira do Arari, São Caetano de Odivelas, de Macapá e de muitos outros caminhos musicais pela Amazônia e pela rico universo da cultura popular. “São João é a figura central desse imaginário, o padroeiro da nossa festividade e é representado no nosso céu com uma estrela azul, também por isso que o couro do boi é azul”, comenta Junior Soares, um dos organizadores do Arrastão do Pavulagem, que traz o boi azulado ano após ano nas ruas de Belém.

Celebrado no dia 24 de junho, São João abençoa a quadra junina iluminando o palco do festejo. A história da lenda narra a chegada do Boi Pavulagem como um presente de São João, recebido pelo saudoso Ruy Baldez durante um sonho. A bênção divina segue como motivo de festa neste domingo de arrastão que reverencia o padroeiro da manifestação e a poesia musical dos mestres da região. O afeto e a inspiração vivem nas canções, nos sorrisos, nos bailados, nos batuques. Estão nas toadas de Baldez que ecoam a tradição de brincar ao lado do boi e celebram a memória do artista que tudo isso vislumbrou. Estão no carimbó pop de Lia Sophia que o Batalhão da Estrela toca, canta e dança com “Ai Menina” e o mais novo sucesso da música autoral do norte brasileiro, o carimbó brejeiro “No meio de pitiú” de Dona Onete, canção incorporada este ano ao repertório dos percussionistas do Batalhão da Estrela.

Afeto e reverência ao passado, mas sempre com o olhar atento para o futuro, traduzem os elementos inseridos nos cortejos do Pavulagem. Eles renovam os laços que definem a cultura de ser paraense, como no carimbó de Mestre Verequete. Este ano, a homenagem ao Rei do Carimbó ganhou um componente especial. Quem toca para o Mestre é seu próprio neto, Felipe Rodrigues. Felipe se inscreveu nas oficinas, participou dos ensaios e agora reverencia nas ruas o legado de todo uma vida.

 

Felipe Rodrigues, homenagem para o avô, Mestre Verequete. Foto: Dah Passos

“Quando a gente vem de uma descendência cultural, a gente acaba se emocionando quando vê as pessoas fazendo a cultura acontecer, como o Arraial do Pavulagem. Eu me emociono, quando vejo o arrastão passando, as pessoas tocando. Eu me sinto feliz, porque até hoje as pessoas lembram dele. Eu me sinto pegando uma herança do meu avô, porque a história dele começa com ele tocando boi, fazendo toadas lá em Icoaraci. Eu vi que eu também quero sentir o que ele sentiu”, explica Felipe.

Tempo de resistir e celebrar

Mais do que uma festa, o Arrastão do Boi Pavulagem é o momento de encontro e celebração de um compromisso de três décadas para fortalecer a identidade do povo paraense, que começa muito antes dos cortejos, ainda no processo de oficinas, quando partilhamos vivências e pesquisas sobre a música brasileira produzida no Norte do Brasil. Em junho de 1987, um grupo de artistas se reunia ao redor do Teatro Waldemar Henrique para assumir a missão de apresentar para a cidade a sua própria música, autoral, e a poesia de seus compositores, em um tempo que não tinham acesso nem à rádio pública para divulgar suas músicas, muito menos a internet.

O símbolo da brincadeira foi batizado de “Boi Pavulagem do Teu Coração” e de lá pra cá, o couro do boi ganhou bordados, sonhos e muitos desejos. Histórias que marcam a vida de quem acompanhou o desenvolvimento do Arrastão do Pavulagem. A professora Ângie Yêda Nascimento viu toda essa construção. Desde o começo nos anos 80, ela permanece com o olhar de amor e admiração.

“Eu venho, porque sou apaixonada pela cultura popular. Trago sempre alguém da família. Um sobrinho, um neto, um filho. Uns ficaram, outros seguiram. Mas sempre trazendo para que eles conheçam e vejam que a nossa cultura pode ser bonita, encantadora, magnífica. O Pavulagem conseguiu conquistar os jovens e mudar essa visão que, na minha época havia, quando as pessoas tinham vergonha de dançar música tradicional. O Pavulagem foi mudando isso, por causa da renovação que fez ao apresenta os ritmos, mostrando a nossa cultura é algo que dá orgulho, promovendo um pertencimento às coisas da nossa terra, da gente se identificar com o ser de Belém, ser do Pará, de ser Pavulagem”, avalia Yêda Nascimento.

Yêda, de blusa preta e chapéu de fita, e a família. Foto: Dah Passos

E se depender do público de mais de 20 mil pessoas que tem frequentado os cortejos, segue vivo o orgulho de ser Pavulagem. O encontro deste domingo de 25 de junho termina na Praça da República com o show da banda Arraial do Pavulagem ao final do arrastão. A programação tem apoio da Prefeitura Municipal de Belém, Fundação Hemopa, Santa Casa de Misericórdia do Pará, Estação das Docas, Fundação Cultural do Pará e Sindicato . Na trilha sonora do espetáculo, toadas de boi, quadrilha, carimbó, marabaixo, retumbão e muito xote.

Serviço:

3º Arrastão do Pavulagem 2017

Dia 25 de junho – Concentração às 9h na Escadinha da Estação das Docas.

Saída prevista do cortejo – 10h

Percurso – Presidente Vargas até a Praça da República – Theatro da Paz

 

 

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